O ANJO DA MORTE

Por Gian Danton

Às vezes parecia que, de tanto acreditar
Em tudo que achávamos tão certo,
Teríamos o mundo inteiro e até um pouco
Mais:
Faríamos florestas no deserto
E diamantes de pedaços de vidro.
Legião Urbana - Andrea Doria

Nunca houve época como aquela. Eu vivia com Camila em uma casinha entranhada no meio do bosque. Era uma casinha rústica, mas bonita. Eu plantava flores em canteiros ao redor da casa. Assim, quando acordávamos éramos recepcionados por uma arco-íris vegetal. Eu então lavava meu rosto no riacho e levava água para que Camila fizesse o café. Enquanto ela canta e eu a observava:

No mundo não me sei parelha,
Enquanto me fora vida como me vai,
ca já morro por vos - e ai
mia senhora branca e vermelha,
queredes que vos retrate
quando vos eu vi em saia!
Maldito dia que me levantei,
que vos então nom te vi feia!

Como era linda! Ela tinha cabelos ruivos, cacheados e longos, que desciam em cascata por suas costas. Um ou outro cacho caía, distraído sobre os olhos azuis ou os lábios muito vermelhos e carnudos. Talvez eu não tivesse razão para isso, mas o fato é que eu sempre me surpreendia com a beleza de Camila, com seus gestos delicados, com a doçura de sua voz. Desde que chegamos ali a beleza de Camila não se alterara minimamente. Isso não deveria se motivo de espanto, mas eu, acostumado a nosso passado, mal conseguia acreditar em meus olhos. E, no entanto, lá estava ela: linda, suave como a brisa de verão, aconchegante como uma lareira no inverno. Não havia uma única ruga em seus olhos, uma única mancha em seu corpo, além das maravilhosas sardas que lhe tomavam o peito. Eu jamais me cansava de admirá-la e me admirar com o milagre de beleza tão duradoura. Quando, enfim, ela terminava, nós tomávamos café olhando nos olhos um do outro e trocando sorrisos. Depois saíamos para passear pelos bosques. Ficávamos lá em cima, de mãos dadas, no meio das flores, observando o bosque abaixo de nós... Éramos felizes em nossa quieta solidão.
Devo admitir, no entanto, que gostávamos de visitas, tão raro era recebê-las. Foi o que aconteceu certa tarde. Eu estava cortando madeira quando ouvi atrás de mim o trote de um cavalo. Um homem vestido de preto, usando um grande chapéu da mesma cor vinha em minha direção, montado em um majestoso corcel negro. Larguei o machado e me aproximei dele. Foi meu primeiro erro. Eu deveria ter aproveitado a chance para cortá-lo ao meio. Mas eu não sabia...
-- Seja bem vindo, forasteiro!
Ele apeou, tirou o chapéu e se persignou.
-- Sou um pobre alquimista que busca reefúgio dos perigos da noite, meu senhor.
- Minha casa é humilde, mas aqui você eencontrará pousada. - respondi. Qual é o seu nome?
-- Flogisto. É como sou chamado.
-- Flogisto...
-- É o elemento universal responsável ppela queima de todas as coisas...
Nisso Camila apareceu à porta. Ela pousou a mão no batente e inclinou a cabeça, deixando que seus cabelos caíssem ao longo de seu corpo, como uma cachoeira rubra.
-- É sua esposa? - indagou o forasteiroo, olhando pelo canto do olho.
-- Sim, esta é Camila.
-- É demasiado bela!
O alquimista se aproximou de Camila e, pegando-lhe a mão, beijou-a .
-- Sua beleza brilha como um farol nesssa terra perdida.
Camila sorriu um sorriso constrangido e convidou-o a entrar. Logo chegou a noite.
Eu acendi a lareira, enquanto Camila preparava uma sopa.
-- Há quanto tempo estão aqui? - pergunntou o forasteiro.
-- Não faço idéia. - respondi. Não sei de quanto tempo se passou lá fora. Aqui o tempo é pontuado por nossa felicidade.
-- São felizes, então?
-- Jamais fomos tão felizes. - respondeeu Camila.
-- A felicidade é isso? Viver entocada num bosque, longe de tudo e de todos? Em outros locais você poderia ser uma princesa...
-- Uma princesa tem medo. Uma princesa corre perigo. Uma princesa tem obrigações. Aqui somo só eu e meu amado. Ninguém se importa conosco.
-- Todos corremos algum tipo de perigo.. - tornou o forasteiro.
Eu olhei para ele com olhos de chama. Não estava gostando do rumo da conversa. Parecia que eu sentia que algo terrível iria acontecer. Mas ele não notou meu descotentamento. Seus olhos estavam fitos em Camila.
-- Carlos me protege. Eu não tenho medoo.
O estrangeiro inclinou-se, aparentemente resignado.
-- A senhora me convenceu.
Camila serviu a sopa, que comemos com delicioso pão. No final o estrangeiro abriu o alforje e tirou de lá uma caixa preta.
-- Não quero partir sem antes dar-lhe uum presente, minha senhora.
Camila pegou a caixa. Eu tentei lembrá-la que abrir presentes era perigoso, mas já era tarde demais. Ela abriu a tampa e saiu de lá um mosaico maravilhoso de luzes coloridas. Elas se elevaram no ar e começaram a explodir como fogos de artifício. Camila olhava para o espetáculo, totalmente maravilhada. Depois disso não houve qualquer incidente. Terminamos de comer, Camila arrumou o quarto de hóspedes e fomos dormir. Mas aquele presente misterioso não saía de minha cabeça.
Naquela noite tive um pesadelo. Sonhei que Camila envelhecia progressivamente até que eu não pudesse mais reconhecê-la no meio das rugas. E ia diminuindo de tamanho, até que não sobrasse mais nada dela.
Quando acordei, olhei para o lado e não encontrei minha amada. Saí desesperado pela casa, mas não a encontrei. Lembrei-me, então, do forasteiro. Ele também não estava em seu quarto. A compreensão me veio como uma relâmpago. Nosso visitante era um anjo da morte. Eu ouvira falar deles. Eles andavam pelos campos, pelas cidades, ceifando vidas. Ninguém sabia como escolhiam suas vítimas. Peguei o machado, um capote e me pus a persegui-lo. Apesar de estar a pé, eu não poderia deixá-lo sair do bosque, ou talvez nunca mais o encontrasse. Caminhei horas e horas pela floresta iluminada apenas pela luz da lua. Meus pés já não aguentavam mais. Por fim desisti e sentei sobre o tronco de uma árvore caída e chorei. À medida em que as lagrimas caíam de meus olhos, a realidade ia se dissolvendo, como uma pintura sobre a qual se joga água. O bosque, a montanha, a casa, tudo desaparecia gradualmente. A ilusão estava desfeita.
Eu mentira para o forasteiro. Eu me lembrava muito bem há quanto tempo estava ali. Eram décadas. E, embora durante todo esse tempo eu tenha lutado para me esquecer, a verdade é que acabei me lembrando rapidamente: o bosque, a casinha, o canteiro de flores, a beleza de Camila, tudo era falso. Camila e eu nos casamos jovem, em uma metrópole. Não tivemos filho. Talvez por isso a velhice tenha nos pesado tanto. Quando ficou claro que nossos corpos morreriam em breve, fizemos o que todas as pessoas de nossa idade (e até outras mais jovens) estavam fazendo: transferimos nossa consciência para a rede de computadores. Nossos corpos morreram poucos meses depois. Mas pouco nos importava. Estávamos em outro mundo, em uma realidade idílica. Escolhemos viver em uma época antiga, com mais ingenuidade e mais felicidade. A doença e a velhice já não eram fantasmas pairando sobre nós. Voltamos a ser belos e jovens. Nunca fomos tão felizes. Com o tempo recebíamos visitas que nos traziam as novidades: a cada ano aumentava a quantidade de pessoas que abandonava o corpo para viver uma vida virtual. Afinal, quem não gostaria de viver no paraíso? Mas em todo paraíso há sempre o mal. O mal era personificado pelos exterminadores de consciência. No século XX eles seriam chamados de hacker, mas nós os chamávamos simplesmente de anjos da morte. Eles entravam em uma determinada realidade, escolhiam uma pessoa e a infectavam com um vírus, fazendo com que sua consciência fosse deletada. Teoricamente havia uma maneira de resgatar a pessoa. O vírus nunca a deletava completamente. Sua consciência ficava presa em algum ponto da rede. Talvez houvesse uma maneira de salvar Camila, mas era muito remota. Cobri meu rosto com as mãos e chorei, em meio à imensidão virtual.

Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e a minha princesa
Legião Urbana

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