O HOMEM IMORTAL

Por Gian Danton

Nesses vários anos em que tenho feito fanzines, conheci - não pessoalmente, mas por carta - os mais diversos tipos de pessoas. Recentemente recebi uma carta de um senhor pedindo uma de minhas produções. Percebi que se tratava de um senhor idoso pela linguagem pomposa e formal. O tipo de carta que começa, inevitavelmente, com : "Ilustríssimo Senhor". E seguia com "Peço a gentileza", "Despeço-me saudoso" etc...
Mandei o referido fanzine e recebi, em resposta, uma carta de admiração pelo meu estilo que terminava de maneira enigmática: "O amigo não desconfia o que eu teria a lhe confiar".
Confesso que fiquei tão curioso com o significado dessa frase que lhe escrevi, pedindo que esclarecesse o assunto.
O que ele me respondeu, então, foi espantoso. Disse-me que era muito mais velho do que eu de fato supunha. E se pôs a relatar fatos que deveriam demonstrar a idade que tinha. Eram fatos isolados, e não necessariamente cronológicos, mas chamavam atenção pelos detalhes.
Contou-me, por exemplo, que quando já morava no Brasil, foi acordado certa noite por uma estranha procissão. Havia, na rua, pessoas com velas na mão, entoando cânticos religiosos. Mas no andor, como se fosse um santo, vinha um negro de olhar perdido e expressão abobalhada. Soube depois que a procissão era, na verdade, um manifesto abolicionista e que o negro fora torturado por seu senhor que, não satisfeito, o pendurara no teto do paiol por dois dias.
Contou ainda outros fatos, mas esse me parece suficiente para que o leitor desconfie do que eu já desconfiava: se fossem mesmo verdadeiros, o meu missivista deveria ter mais de 100 anos!
Escrevi de novo, demonstrando minha admiração por sua idade e, levando-a em consideração, pela sua lucidez.
Ele me escreveu outra carta, na qual revelava que não tinha apenas 100 anos. Mas 2000 deles:

"O amigo não imagina o que vi nesses dois milênios. Presenciei a ascensão e morte de Imperadores, saboreei mais comidas do que a minha memória é capaz de lembrar, tive alegrias, tristezas, vi camelos e cangurus e lhamas. E principalmente conheci a morte.
Talvez o amigo, por ser mortal, não se preocupe tanto com a morte. Afinal, como diziam os filósofos antigos, ninguém jamais voltou para reclamar do além túmulo. Assim, o homem sensato evita pensar na morte. Eu, no entanto, por me ser vedado morrer, preocupei-me sobremaneira com a noiva negra.
Conheci a morte de perto milhares de vezes e sempre que via um defunto, aproximava-me curioso, como se a visão do corpo inerte fosse capaz de me revelar os mistérios da morte. Isso no começo, porque depois criei ojeriza por cadáveres. É que me iam morrendo todas as pessoas mais queridas. E eu ficava. Com o tempo concluí que a morte não era realmente triste para quem partia. Mesmo aquele que sofre grandes dores, vê nela um anestésico excelente. Mortos não se regozijam com a morte, é certo, mas também não a lamentam. Donde se conclui que ela só é realmente triste para os que ficam.
Não é de se admirar, portanto, que eu evitasse relações duradouras. Na certeza de que as pessoas morreriam, eu não me ligava a elas.
Além disso, minha imortalidade chamava atenção. Especialmente na Idade Média, quando fui diversas vezes perseguido. Cheguei a ser denunciado à Inquisição por bruxaria e escapei disso da mesma forma que escapei de outros perigos similares: forjando minha própria morte.
Com o fim da Idade das Trevas, um segundo expediente se tornou possível: eu simplesmente me mudava de tempos em tempos. Não o fazia antes por dois motivos: o primeiro deles é que havia poucas estradas e a locomoção era difícil. Por outro lado, e essa é a segunda razão, os viajantes não eram bem vistos em lugar algum. Todo e qualquer crime não solucionado era sempre responsabilidade dos forasteiros. Se as vacas não davam leite, se a terra, esgotada, não fornecia mais vegetais, se uma casa pegava fogo, bastava esquartejar um forasteiro para que tudo se resolvesse.
Entretanto, com o surgimento das grandes navegações, e com as viagens de Marco Polo ao Oriente, tornou-se comum encontrar viajantes. Logo percebi que o Novo Mundo seria um bom lugar para mim e embarquei em um navio. A viagem durou meses em condições higiênicas que deixariam o amigo atônito. Carne fresca ou verduras eram verdadeiros luxos só dispensados ao capitão e aos oficiais. A marujada comia, no fim da viagem, apenas um biscoito mole e embolorado.
Mas todo o esforço foi recompensado. No Brasil colonial os viajantes eram bem vindos, pois traziam notícias, um mercadoria muito estimada naquele tempo. E tenho estado aqui desde então".

Confesso que a carta me deixou bastante intrigado. Consegui em uma revista referência à história do negro torturado. Outros fatos relatados pelo autor da missiva poderiam ser encontrados em livros ou outros tipos de publicações. Isso, no entanto, não me ajudava em nada. Por um lado, as referência confirmavam os fatos, o que me leva a concluir que ele não os inventou. Mas, por outro lado, essas mesmas referências podiam indicar que eu estava lidando com um aficcionado por história que, às portas da morte, imaginava-se imortal. A imortalidade imaginária, na qual ele evidentemente acreditava, servia de compensação.
Era uma boa explicação, mas pecava por ser racionalista em excesso: ela partia do princípio de que não existem homens imortais. O filósofo Popper nos preveniu que o objetivo da ciência não é verificar as hipóteses, mas falseá-las. Em outras palavras, diante da hipótese de que todos os homens são mortais, devemos procurar homens imortais. Se não encontrarmos um único deles, aí sim podemos afirmar que nossa hipótese está correta. E se eu tivesse, de fato, encontrado um homem imortal?
Escrevi uma carta, expondo a ele minha dúvidas e perguntando o que fazia dele um homem imortal, já que todos nós vivemos sob a lâmina da morte. Ele me enviou uma última missiva, que trazia simplesmente esta citação do apóstolo Marcos:

“Então Judas Iscariotes, um dos doze, foi ter com os grandes sacerdotes, para o entregar a eles. Ouvindo isso, alegraram-se e deram-lhe dinheiro (...) ai desse homem, pelo qual o filho do Homem vai ser entregue. Teria sido melhor se não houvesse nascido”.

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