A Mulher de Negro

Por José Luiz Peixoto

Quando me aproximei da bicicleta, prestei atenção aos meus passos na terra. O som da terra solta a mover-se sob os meus pès. A terra solta como um animal seco a falar-me numa voz de tempo que passou, que se esgotou em anos que não vivi. Como se eu caminhasse, me aproximasse da bicicleta, e a terra sob os meus pés fosse já uma terra morta, fosse já um resto seco, solto e morto que muitas gerações usaram e me deixaram usado, gasto, seco, solto e morto. Depois, os movimentos de subir para cima da bicicleta desenhados pelo som da terra solta da estrada. Eu a passar a perna direita sobre o selim. Eu a sentar-me, a pousar os pés nos pedais. Os pneus da bicicleta, finos. Os pneus a deslizarem na terra. O som liso da terra interrompido por pedras. Pedras como a pontuação da tarde. Pedras pequenas como vírgulas, pedras maiores como pontos.
À minha volta, árvores, todos os tons da cor verde. Todas as lembranças da cor verde: carvalhos com a cor de vozes a falarem-me de um tempo bom; pinheiros com a cor escura do medo; choupos com a cor de água a correr, e a infância, e a profundidade bela de lagos que imaginei porque, em algum momento da minha vida, imaginei lagos. Deixei a estrada, um movimento no guiador da bicicleta, os dois braços a moverem a linha do guiador da bicicleta e a moverem a linha invisível que existia diante do pneu da bicicleta. De repente, a terra seca a desaparecer. Uma fronteira que talvez fosse uma porta e, sob o pneu da bicicleta, a terra seca a transformar-se em ervas depois de ter chovido, raízes húmidas a saírem fora da terra, pedras limpas. De repente, não se conseguia imaginar o pó. Troncos de árvores à minha volta. Arbustos que se agarravam a troncos de árvores, como se fossem braços que se agarravam a troncos grossos de árvores. A luz entrelaçava-se em tudo: nos troncos, nos arbustos, no som dos pneus da bicicleta a fazerem estalar pequenos ramos sobre o chão húmido de ervas e de folhas. A luz chegava de um céu que nem se via, nem se imaginava depois dos ramos mais altos das árvores.
Ao entrar na floresta, o guiador a balançar nas minhas mãos, afastava-me de tudo o que era a minha casa, os meus amigos, os lugares onde pensava que me podia sentir seguro. A tarde tornara-se fresca no meu corpo sob as roupas: a camisola branca, as calças. Conhecia menos o meu corpo sob as roupas do que conhecia as roupas. Conhecia as roupas do tempo que passaram guardadas em gavetas, conhecia-as de quando as dobrei e guardei em gavetas, quando as escolhi e comprei, e, nesse dia, quando as escolhi por querer vesti-las. Lembrava-me do meu corpo ridículo. O meu corpo, sob as roupas, era ridículo. E, ao longe, na berma do caminho, um vulto negro. Os sons da floresta, as árvores, a bicicleta e, ao longe, o silêncio imóvel de um vulto negro. Aproximei-me e era uma mulher vestida de negro. Um xaile negro sobre os ombros. Um lenço negro sobre a cabeça. O som dos pneus da bicicleta a pararem, o som de amassarem folhas húmidas e de fazerem estalar ramos. Os meus pés a pousarem no chão. Os olhos da mulher entre o negro. Os olhos pequenos da mulher. O seu rosto branco. Vimo-nos como se nos encontrássemos, como se nos tivéssemos perdido havia muito tempo e nos encontrássemos. O tempo deixou de existir. O silêncio deixou de existir. Pousei a bicicleta no chão para caminhar na direcção da mulher. Era atraído por segredos. Durante os meus passos, a mulher estendeu-me a mão. A sua mão era muito velha. A palma da sua mão tinha linhas que eram o mapa de uma vida inteira, uma vida com todos os seus enganos, com todos os seus erros, com todas as suas tentativas. A sua mão muito velha. Os seus olhos de pedra. Pousei a minha mão sobre a sua. Senti os ossos da sua mão a envolverem os meus dedos. Não me puxou, mas eu aproximei o meu corpo do seu. Senti a sua respiração no meu pescoço. A sua respiração era uma brisa. E a sua voz. Oh, quanto chorei por ti, disse-me.
Eu soube que aquela mulher de negro me conhecia muito bem. Conhecia-me quando eu estava sozinho. Conhecia-me quando eu pensava naquilo que nunca contei a ninguém. Os seus olhos tinham a imagem da minha angústia. Oh, quanto chorei por ti. Hoje, sou eu que preciso de ti, disse-me. Olhei-a nos olhos porque os olhos eram o sítio por onde ela me via. Tínhamos aos mãos dadas, estávamos próximos, mas eram os olhos que deixavam que nos tocássemos. Aquilo que os meus olhos viam era tudo o que existia diante de mim, e isso era tudo o que existia para mim. Aquilo que os meus olhos viam era os olhos da mulher de negro. Falou-me de como o seu marido morria. A morte. Eu encontrei a morte muitas vezes. Em cada dia, há instantes em que a morte me toca. A morte tem mãos de fumo. Em cada dia, em instantes que não consigo prever, a morte toca-me por dentro. Às vezes, dou-lhe a mão, aproximo-me dela, ouço o que tem para me dizer. Há muito tempo que não tenho medo da morte, como não tenho medo da noite, da escuridão. Tenho medo de muitas coisas. O tempo passa e tenho medo de cada vez mais coisas, mas não tenho medo da morte, nem da noite, nem da escuridão. Eu conhecia muito bem aquela mulher de negro. Dentro da floresta, como se estivéssemos dentro de nós próprios, como se nos tivéssemos encontrado por termos fechado os olhos ao mesmo tempo, a mulher falou-me de como o seu marido morria. Alguém de quem gostamos muito, o amor; um dia ficaremos sozinhos, a morte. Hoje, sou eu que preciso de ti, disse-me. A minha bicicleta estava largada no chão. Entre as árvores, desde lugares frescos que ninguém conseguiria encontrar, ouvia-se o som absoluto dos insectos. O coro das suas vozes eram uma superfície que existia sobre a superfície do mundo. Eram um mundo que existia sobre o mundo. Eu olhava a mulher de negro. As palavras deixaram de existir. Eu gostava de lhe poder falar da coragem, mas eu não sabia falar-lhe da coragem.
O tempo passava entre as árvores. A tarde deixou de existir. Eu, que olhava para a mulher, que a conhecia tanto, gostava de dizer-lhe que não tivesse medo das árvores, dos insectos que espalham mistérios pelo vento, da noite, a noite. Eu segurava a mão da mulher. Os seus olhos estavam cercados por roupas negras, um lenço negro, um xaile negro. Hoje, preciso de ti. Eu gostava de falar-lhe de coragem e esperei um instante. Nesse tempo, tempo infinito, houve uma verdade que ficou parada nos meus olhos: alguém de quem gostamos muito, o amor, ficará nas árvores, continuará a crescer, como uma criança, dentro dos troncos e dos ramos mais finos das árvores. Uma verdade: nunca estaremos sozinhos se conseguirmos ver essa pessoa nas pedras. Haverá caminhos, terra, ervas. Haverá montanhas e haverá o horizonte. Vales, rios que nunca mais voltaremos a ver. Nunca estaremos sozinhos. O céu, as pedras, as árvores rodear-nos-ão de amor.
Passei os braços sobre os ombros da mulher de negro. Desci as minhas mãos ao longo das suas costas. Senti-a dentro dos meus braços. O seu peito tocava o meu peito. O tempo deixou de existir. O silêncio deixou de existir. As palavras deixaram de existir. A mulher de negro encostou a testa ao meu ombro. Eu sentia todo o seu corpo, velho, frágil, dentro dos meus braços. Enquanto nos abraçávamos, existíamos antes, durante e depois do futuro.

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