A ÚLTIMA NOITE
Meu nome é Ravena, um nome um tanto quanto estranho, eu reconheço. Mas nas
minhas atuais circunstâncias até que ele me cai muito bem. Que
circunstâncias são essas? Bem, convido-os a conhecer a história de minha
vida, ou de como ela termina...
Era uma noite de outono, embora o frio invernal já se pronunciasse naquela
pequena cidade encravada em uma montanha . Eu era uma garota aparentemente
normal para os meus vinte anos. Talvez parecesse um pouco mais jovem pelas
minhas sardas adquiridas na infância. Era dona de uma invejável cabeleira
vermelha e tinha feições suaves e pele bem branca. De fato, eu gostava do
que via no espelho. Meus longos cabelos vermelhos freqüentemente me rendiam
apelidos e o mais comum era o de bruxa. Eu até me orgulhava disso, afinal,
era uma estudiosa voraz das artes ocultas. Tudo o que fosse inexplicável,
etéreo e até mesmo maligno me atraía. Mas isso não vem ao caso.
Numa noite, após uma briga com meu namorado na época, saí a vaguear pela
cidade em busca de alívio, para procurar a solidão que era uma velha amiga,
e sempre muito bem vinda nestas horas. Fui para um dos meus locais favoritos
na cidade, uma grande catedral gótica, talvez a construção mais antiga da
cidade e ainda muito bem conservada. Àquela altura da noite já não haveria
mais nenhuma missa e os pátios gigantescos e silenciosos eram só meus e das
grandes árvores que pareciam cantar com as carícias do vento.
Mas, pelo canto do olho, percebi que podia estar sendo seguida. Para ter
certeza, resolvi dar uma volta pelo jardim dos fundos, mas minha
desconfiança foi confirmada ao ver que o sujeito esgueirava-se por entre os
arbustos para não me perder de vista. À essa altura o medo já tomava conta
de mim e este medo tornou-se desespero ao ver o brilho da lâmina da enorme
faca que aquele homem trazia consigo e que não fazia questão de esconder.
Suas intenções já eram claras para mim quando pus-me à correr para o pórtico
dianteiro da igreja em busca de ajuda. Quando começava a subir as escadas
ele me alcançou, puxou-me por uma das pernas e caí. Quando me virei pude ver
seu rosto contra a luz da lua, era um assaltante como os outros, mais
parecia um bêbado que um serial-killer. Ele vociferou que lhe entregasse
todo o dinheiro que tivesse e eu tentei explicar-lhe que saí para caminhar
apenas e que nada trazia comigo. Foi quando ele desferiu o primeiro golpe, e
antes que eu pudesse sentir a dor, por reflexo levei a mão ao enorme rasgo
provocado pela faca e pude sentir jorrar meu sangue quente, empapando minha
blusa. Tentei gritar por socorro, mas foi em vão. Ele já desferira o segundo
e o terceiro golpes, tão rápidos que só pude me dar conta do estrago feito à
mim quando meu algoz já fugia e sumia na escuridão. O ferimento era grande
demais para que eu sobrevivesse, certamente eu sangraria até a morte sem
nada poder fazer. Tentei gritar novamente mas minha voz não saía , seria
aquilo sangue na minha garganta? Que ironia, às portas da casa de Deus e
este parecia negar-me socorro, nenhuma alma que me pudesse ajudar naquela
agonia sem fim.
E então ele me apareceu. Na verdade eu não pude vê-lo muito bem à
princípio, pois meus sentidos começavam a desvanecer e o calor da vida a
abandonar-me o corpo. Pude senti-lo debruçar-se ao meu lado e ele cheirava à
morte. Mas não como os cadáveres, e sim como as flores. Qual não foi o meu
espanto quando ele abaixou-se e começou a lamber minha ferida, e não só a
ferida como também as poças de sangue que se formavam no chão abaixo de mim.
Eu estava tão atônita que reuni minhas últimas forças para tentar empurrar
aquele monstro para longe de mim. Eu já havia lido tudo que encontrara à
respeito de vampiros, mas não acreditava no que estava vendo. Seria ele
um?...
Neste momento senti um frio terrível e perdi de vez a consciência, não
conseguia formular pensamentos que fizessem sentido, tudo parecia um
pesadelo confuso em preto e branco. Eu caminhava sozinha em direção à um
abismo e já não sentia mais dor. Quando meus pés tocavam a beirada, uma
força descomunal me puxou de volta. Quando abri meus olhos inexplicavelmente
estava a sugar o pulso daquele ser com a mesma vontade que um bebê faminto
se alimenta do seio de sua mãe. Era como se ele fosse meu único elo com este
mundo e não queria mais soltá-lo. Então ele me empurrou com violência e
disse com um sorriso nos lábios que desse jeito eu o secaria. Foi quando
pude pela primeira vez perceber bem a grandeza de sua imagem diante de mim.
Mesmo agachado ao meu lado, tinha uma postura altiva e desafiadora. Possuía
o mais belo par de olhos azuis que eu já fitara, a pele era tão branca que
lhe conferia a aparência de uma estátua de marfim, porém, era tão cheio de
vida. Seus longos cabelos imaculadamente pretos caíam-lhe pelas costas numa
profusão de ondas suaves. Certamente era o mais belo exemplar masculino que
eu já vira. Mas esse momento de fascinação logo me foi arrancado pela dor
lancinante que eu sentia em meu ventre outrora dilacerado. As feridas
curavam-se numa velocidade incrível, mas isso fazia-me contorcer de dor,
parecia estar sendo cauterizada. Ele me tranqüilizou dizendo que era parte
do processo, pelo qual ele próprio passara, que meu corpo físico se curava
para então morrer, perdendo suas funções de outrora, e que logo eu não
sentiria mais nenhuma dor. Pelo menos, nenhuma dor física. Ele tomou-me em
seus braços, dizendo-me que eu ainda estava muito fraca e que logo os
primeiros raios de sol da manhã estariam aparecendo no horizonte e que era
melhor nos protegermos. Fugimos juntos, eu nos braços de um anjo da morte
cujos pés mal tocavam o chão. Morta, e renascida para uma nova vida. Esperem
por notícias minhas.
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