A ÚLTIMA NOITE

Por Joice Viana

Meu nome é Ravena, um nome um tanto quanto estranho, eu reconheço. Mas nas minhas atuais circunstâncias até que ele me cai muito bem. Que circunstâncias são essas? Bem, convido-os a conhecer a história de minha vida, ou de como ela termina... Era uma noite de outono, embora o frio invernal já se pronunciasse naquela pequena cidade encravada em uma montanha . Eu era uma garota aparentemente normal para os meus vinte anos. Talvez parecesse um pouco mais jovem pelas minhas sardas adquiridas na infância. Era dona de uma invejável cabeleira vermelha e tinha feições suaves e pele bem branca. De fato, eu gostava do que via no espelho. Meus longos cabelos vermelhos freqüentemente me rendiam apelidos e o mais comum era o de bruxa. Eu até me orgulhava disso, afinal, era uma estudiosa voraz das artes ocultas. Tudo o que fosse inexplicável, etéreo e até mesmo maligno me atraía. Mas isso não vem ao caso. Numa noite, após uma briga com meu namorado na época, saí a vaguear pela cidade em busca de alívio, para procurar a solidão que era uma velha amiga, e sempre muito bem vinda nestas horas. Fui para um dos meus locais favoritos na cidade, uma grande catedral gótica, talvez a construção mais antiga da cidade e ainda muito bem conservada. Àquela altura da noite já não haveria mais nenhuma missa e os pátios gigantescos e silenciosos eram só meus e das grandes árvores que pareciam cantar com as carícias do vento. Mas, pelo canto do olho, percebi que podia estar sendo seguida. Para ter certeza, resolvi dar uma volta pelo jardim dos fundos, mas minha desconfiança foi confirmada ao ver que o sujeito esgueirava-se por entre os arbustos para não me perder de vista. À essa altura o medo já tomava conta de mim e este medo tornou-se desespero ao ver o brilho da lâmina da enorme faca que aquele homem trazia consigo e que não fazia questão de esconder. Suas intenções já eram claras para mim quando pus-me à correr para o pórtico dianteiro da igreja em busca de ajuda. Quando começava a subir as escadas ele me alcançou, puxou-me por uma das pernas e caí. Quando me virei pude ver seu rosto contra a luz da lua, era um assaltante como os outros, mais parecia um bêbado que um serial-killer. Ele vociferou que lhe entregasse todo o dinheiro que tivesse e eu tentei explicar-lhe que saí para caminhar apenas e que nada trazia comigo. Foi quando ele desferiu o primeiro golpe, e antes que eu pudesse sentir a dor, por reflexo levei a mão ao enorme rasgo provocado pela faca e pude sentir jorrar meu sangue quente, empapando minha blusa. Tentei gritar por socorro, mas foi em vão. Ele já desferira o segundo e o terceiro golpes, tão rápidos que só pude me dar conta do estrago feito à mim quando meu algoz já fugia e sumia na escuridão. O ferimento era grande demais para que eu sobrevivesse, certamente eu sangraria até a morte sem nada poder fazer. Tentei gritar novamente mas minha voz não saía , seria aquilo sangue na minha garganta? Que ironia, às portas da casa de Deus e este parecia negar-me socorro, nenhuma alma que me pudesse ajudar naquela agonia sem fim. E então ele me apareceu. Na verdade eu não pude vê-lo muito bem à princípio, pois meus sentidos começavam a desvanecer e o calor da vida a abandonar-me o corpo. Pude senti-lo debruçar-se ao meu lado e ele cheirava à morte. Mas não como os cadáveres, e sim como as flores. Qual não foi o meu espanto quando ele abaixou-se e começou a lamber minha ferida, e não só a ferida como também as poças de sangue que se formavam no chão abaixo de mim. Eu estava tão atônita que reuni minhas últimas forças para tentar empurrar aquele monstro para longe de mim. Eu já havia lido tudo que encontrara à respeito de vampiros, mas não acreditava no que estava vendo. Seria ele um?... Neste momento senti um frio terrível e perdi de vez a consciência, não conseguia formular pensamentos que fizessem sentido, tudo parecia um pesadelo confuso em preto e branco. Eu caminhava sozinha em direção à um abismo e já não sentia mais dor. Quando meus pés tocavam a beirada, uma força descomunal me puxou de volta. Quando abri meus olhos inexplicavelmente estava a sugar o pulso daquele ser com a mesma vontade que um bebê faminto se alimenta do seio de sua mãe. Era como se ele fosse meu único elo com este mundo e não queria mais soltá-lo. Então ele me empurrou com violência e disse com um sorriso nos lábios que desse jeito eu o secaria. Foi quando pude pela primeira vez perceber bem a grandeza de sua imagem diante de mim. Mesmo agachado ao meu lado, tinha uma postura altiva e desafiadora. Possuía o mais belo par de olhos azuis que eu já fitara, a pele era tão branca que lhe conferia a aparência de uma estátua de marfim, porém, era tão cheio de vida. Seus longos cabelos imaculadamente pretos caíam-lhe pelas costas numa profusão de ondas suaves. Certamente era o mais belo exemplar masculino que eu já vira. Mas esse momento de fascinação logo me foi arrancado pela dor lancinante que eu sentia em meu ventre outrora dilacerado. As feridas curavam-se numa velocidade incrível, mas isso fazia-me contorcer de dor, parecia estar sendo cauterizada. Ele me tranqüilizou dizendo que era parte do processo, pelo qual ele próprio passara, que meu corpo físico se curava para então morrer, perdendo suas funções de outrora, e que logo eu não sentiria mais nenhuma dor. Pelo menos, nenhuma dor física. Ele tomou-me em seus braços, dizendo-me que eu ainda estava muito fraca e que logo os primeiros raios de sol da manhã estariam aparecendo no horizonte e que era melhor nos protegermos. Fugimos juntos, eu nos braços de um anjo da morte cujos pés mal tocavam o chão. Morta, e renascida para uma nova vida. Esperem por notícias minhas.

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