SUA VIDA PELA MINHA MORTE
Acordei, um pouco atordoada e confusa, meus olhos ainda acostumando-se à
escuridão, que parecia aos poucos dissipar-se enquanto me adaptava à ela.
Sentia-me acordando de um longo e terrível pesadelo, tudo que me lembrava
era de ter voado nos braços de um anjo. Um anjo de esvoaçantes vestimentas
negras e faiscantes olhos azuis. Não parecia muito com a descrição de anjos
que nos oferece a Igreja, mas era a única explicação para o que ele poderia
ser.
Tentei em vão juntar as partes de meu sonho, mas sentia algo forte e
nauseante que ceifava-me qualquer possibilidade de raciocínio. Olhei em
volta, tentando reunir um pouco de atenção e pude observar que nunca havia
estado naquele lugar antes. Era uma casa antiga, isso eu logo pude perceber
pelo tamanho do aposento, pela altura do teto abobadado e a julgar pelo rico
acabamento, deveria ser uma belíssima mansão. Estava em um quarto de dormir,
havia uma grande cama, que ficava sobre um ressalto de madeira no piso e era
coberta por um leve véu que pairava displicentemente dependurado em um
dossel por sobre a cama. O véu oscilava com a suave brisa da noite, que
entrava sem convite através dos vidros quebrados de um vitral parcialmente
destruído. Apesar da decoração e do acabamento, este cômodo parecia não ser
arrumado há tempos, tudo era coberto por grossa camada de poeira branca.
Aproximei-me da cama e pude então percebê-lo ali, meu anjo de sonho. Mas a
imagem que eu via não era nada angelical. Deitado ali, de braços cruzados
sobre o peito, a camisa aberta, pele totalmente desprovida de cor, ele tinha
na face a tranqüilidade e a frieza da morte. Precisava tocá-lo, saber se era
real, embora receasse não encontrar vida nele. Cheguei devagar para perto da
cama, aproximei meu rosto do seu e não senti respiração. Toquei de leve seu
peito na esperança de sentir algum calor ou pulsação, foi quando ele me
acertou um golpe no rosto, com uma força incomum que me fez cair a metros de
distância. Era o que faltava para que eu recobrasse a memória de tudo que me
havia acontecido na noite anterior. Agora me lembrava da morte e de como ele
me trouxera de volta. Certamente ele também havia me levado até aquela casa
para abrigar-me do sol durante o dia.
Quando me refiz do espanto causando pelas minhas próprias recordações, vi
que ele havia acordado e caminhava em minha direção com postura felina e de
repente senti-me uma presa acuada, encurralada e indefesa. Quando
aproximou-se de mim o bastante, encolhi-me e virei meu rosto para o lado, já
esperando o pior. Foi quando ele acariciou de leve minha face, estendeu-me a
mão para que me levantasse, aprumou minha roupa no corpo e verificou se
estava bem. Me pediu desculpas e explicou-me com uma voz doce porém enérgica
que um vampiro jamais dorme tão profundamente que não possa sentir alguém se
aproximando, e que um mortal não sobreviveria a um golpe como o que me foi
aplicado. Foi com essa frase que tive plena consciência de que havia deixado
para sempre o mundo dos vivos. Eu tinha tantas questões em minha mente, me
perturbando enquanto olhava encantada para ele, quando ele me interrompeu:
__Foi isso que me fascinou em você, fez com que a escolhesse.
__O quê? __respondi meio sem jeito, embevecida pela sua voz.
__Essa sua capacidade de se maravilhar com algo como eu, algo que os outros
mortais repugnariam mesmo se deixassem de ser mortais.
__Não tem como repugnar você.
__Não falo apenas de aparência. Aqueles que acreditam na nossa existência
odeiam o que eu represento. Eu sou a morte impiedosa e inescrupulosa, eu sou
um animal, um predador da sua própria espécie, embora eu não seja mais um
deles...
__Eles apenas temem aquilo que não compreendem, tudo o que é para eles
desconhecido.__ Eu respondi, tentando, sem sucesso, acalmá-lo.
__Mas, falando em mortais,__ ele mudou de assunto__ Você deve estar sedenta.
Não tinha forças para fazer sua primeira vítima ainda na noite de ontem.
Foi quando pensei pela primeira vez nas implicações de ser vampira. Eu
haveria de matar, não tinha outro jeito. O sangue borbulhante me chamava
para as ruas, apinhadas de jovens àquela hora. Podia vê-los pela janela. Tão
risonhos e cheios de vida, tão próximos do que eu era há menos de 48 horas
atrás. O que era aquilo que eu sentia? Não podia ser unicamente vontade de
matar, por quê eu haveria de querer matar pessoas que estavam gozando do
melhor que a vida lhes podia oferecer? Estavam tão felizes, casais de mãos
dadas pelas ruas, trocando beijos apaixonados, à despeito dos olhares mal
disfarçados. Eu sentia certa inveja de todos eles. Mas pensar que haveria
toda uma eternidade à minha frente me afastou tais pensamentos. Tantos
lugares para ir, tantas coisas a conhecer...
Meu criador então pegou-me pela mão e levou-me pelas escadas até o andar
térreo da casa. Havia sobre um antigo sofá um belíssimo vestido cor de
carmim e um par de sapatos de bico fino que me serviriam bem. De fato, eu
não poderia sair às ruas daquele jeito, ainda haviam enormes manchas de
sangue e minha blusa ainda estava rasgada, de modo que meus seios estavam
parcialmente à mostra, o que deixou-me um bocado envergonhada. Tendo ele
percebido que eu estava sem jeito, retirou-se da sala, pedindo-me licença, e
deixou-me para que me trocasse. Terminei de vestir-me, pus os sapatos e fui
para a frente de um grande espelho que ficava à esquerda da lareira. Achei
graça do fato de alguns escritores, principalmente os mais antigos,
acreditarem que vampiros não têm reflexo. Fato que eu acabara de comprovar
não ser verídico. Ao olhar-me, percebi que a roupa caíra como uma luva, mas
minha aparência geral era péssima. Não havia sequer resquício de cor em meu
rosto e meus olhos estavam bastante fundos. Eu fiquei apavorada com minha
imagem. Voltei-me e ele estava apoiado no batente da porta a observar-me.
Disse que eu estava belíssima e que tinha acertado em cheio meu tamanho.
Tentei argumentar que as pessoas se assustariam com a minha aparência, que
eu parecia um espectro feminino. Ele limitou-se a dizer que com o sangue
quente de minha primeira vítima viria também a cor e o viço dos vivos.
Preciso confessar que àquela altura esse desconforto, essa necessidade que
eu reluto em chamar de fome, estava tomando conta de mim e eu me sentia
fraca, não conseguiria resistir mais àquele impulso. Saímos juntos para o
que ele chama de caça. Não demorou muito e avistamos dois jovens, deveriam
ter no máximo uns 25 anos cada. Eu ficaria com um e ele com o outro. Meu pai
imortal pediu que eu o observasse um pouco. Postei-me ao lado de uma árvore
e fiquei olhando de longe. Ele abordou os rapazes, cumprimentou-os
cordialmente e iniciaram então uma conversa aparentemente animada. Era
incrível como os jovens pareciam hipnotizados por ele, com o que quer que
ele estivesse dizendo. Ele então olhou para mim e entendi de imediato que
era para me aproximar. Nossa comunicação agora era quase telepática, embora
não pudesse ler sua mente ou ele à minha. Quando juntei-me ao trio, ele me
apresentou um dos rapazes. Chamava-se Márcio. Achei estranha a sua expressão
vazia enquanto olhava para mim. Certamente nem imaginava de fato o que
estava acontecendo, nem poderia. De súbito meu criador perguntou-lhes se
gostariam de jantar conosco, de pronto eles aceitaram. Levamos os rapazes
até nosso refúgio e eles, no estado de torpor em que se encontravam, nem
repararam na condição lastimável da casa. Meu pai imortal acendeu a lareira
e serviu vinho tinto aos dois, que pareciam encantados com o cenário. Então
o vi cochichar algo no ouvido de seu escolhido daquela noite e logo ambos
subiram as escadas deixando-me a sós com minha primeira vítima.
Márcio então, já sob o efeito do vinho, se põe a acariciar meus cabelos,
afagar minha nuca. Ele passa a mão sobre meus ombros e fica a brincar com a
alça do vestido. Para meu espanto, com a outra mão passa a levantar devagar
o cetim que me cobria as pernas. Quando ele se aproxima para me beijar posso
sentir o doce aroma de seu sangue, especialmente quente pois estava
excitado. Eu sou então tomada pelo desejo e não consigo mais evitar. Num
movimento rápido e um pouco desajeitado cravo minhas presas em seu pescoço,
posso senti-lo pulsando enquanto sugo com força. Ele geme alto, já não sei
se de prazer ou de dor. Eu o seguro com força para que não se solte, ele
tenta oferecer resistência mas é tarde. Toda uma vida fluindo para dentro de
mim, gritos, risos, dor, lágrimas, amor e ódio...
Repentinamente, a escuridão. Ele estava morto. Estava acabado. Meu anjo da
morte me observava do alto da escada. Parecia satisfeito e arrastava com uma
das mãos o corpo do outro rapaz ainda agonizante, ele se sacudia em espasmos
e aquela cena me aterrorizou. Eu lhe perguntei por quê não acabava com
aquele sofrimento e ele me disse que nunca matava suas vítimas enquanto
estivessem em seus braços. Ele não queria beber a morte e me aconselhou
para que também não o fizesse, pois poderia ser envolvida por ela.
Enterramos os corpos atrás da casa, perto de uma fonte no jardim e não
tocamos mais no assunto. Naquela noite um vazio enorme tomou conta de mim e
fiquei melancolicamente sentada à janela observando as poucas pessoas que
passavam na rua àquela hora da madrugada. Estariam elas imaginando que
monstros como nós espreitam na escuridão apenas esperando o momento oportuno
para atacar? Eu tinha apenas uma morte nas costas e esse peso já era demais
para mim. Eu sabia que teria que continuar com aquele ritual macabro todas
as noites se quisesse continuar vivendo. Ou sobrevivendo. Sabia também que
eram poucas as maneiras de acabar com aquilo tudo. Meu criador me viu e como
que adivinhando meus pensamentos me disse que eu me sentiria assim no
início, mas que ficaria mais fria com o passar do tempo. Ele estava saindo
novamente, precisava de mais sangue. Embora eu agora soubesse a sensação
indescritível que é, me recusei a ir com ele.
Quando a madrugada ia mudando as suas cores, tornando-se manhã, resolvi
subir para o quarto e abrigar-me da luz. Ele já dormia. Deve ter entrado
pelos fundos para não me incomodar nas minhas divagações sobre vida e morte.
Ou simplesmente para evitar a minha tristeza. Estava tão sujo e descabelado
que nem parecia mais aquela imagem etérea que me encantou no meu despertar.
Parecia muito um mortal agora, tão corado que estava, imagino que deva ter
ceifado muitas vidas numa única noite.
Me deitei ao seu lado e um peso letárgico tomou conta de meu corpo. Logo
estaria dormindo.
Continua...
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