SUA VIDA PELA MINHA MORTE

Por Joice Viana

Acordei, um pouco atordoada e confusa, meus olhos ainda acostumando-se à escuridão, que parecia aos poucos dissipar-se enquanto me adaptava à ela. Sentia-me acordando de um longo e terrível pesadelo, tudo que me lembrava era de ter voado nos braços de um anjo. Um anjo de esvoaçantes vestimentas negras e faiscantes olhos azuis. Não parecia muito com a descrição de anjos que nos oferece a Igreja, mas era a única explicação para o que ele poderia ser. Tentei em vão juntar as partes de meu sonho, mas sentia algo forte e nauseante que ceifava-me qualquer possibilidade de raciocínio. Olhei em volta, tentando reunir um pouco de atenção e pude observar que nunca havia estado naquele lugar antes. Era uma casa antiga, isso eu logo pude perceber pelo tamanho do aposento, pela altura do teto abobadado e a julgar pelo rico acabamento, deveria ser uma belíssima mansão. Estava em um quarto de dormir, havia uma grande cama, que ficava sobre um ressalto de madeira no piso e era coberta por um leve véu que pairava displicentemente dependurado em um dossel por sobre a cama. O véu oscilava com a suave brisa da noite, que entrava sem convite através dos vidros quebrados de um vitral parcialmente destruído. Apesar da decoração e do acabamento, este cômodo parecia não ser arrumado há tempos, tudo era coberto por grossa camada de poeira branca. Aproximei-me da cama e pude então percebê-lo ali, meu anjo de sonho. Mas a imagem que eu via não era nada angelical. Deitado ali, de braços cruzados sobre o peito, a camisa aberta, pele totalmente desprovida de cor, ele tinha na face a tranqüilidade e a frieza da morte. Precisava tocá-lo, saber se era real, embora receasse não encontrar vida nele. Cheguei devagar para perto da cama, aproximei meu rosto do seu e não senti respiração. Toquei de leve seu peito na esperança de sentir algum calor ou pulsação, foi quando ele me acertou um golpe no rosto, com uma força incomum que me fez cair a metros de distância. Era o que faltava para que eu recobrasse a memória de tudo que me havia acontecido na noite anterior. Agora me lembrava da morte e de como ele me trouxera de volta. Certamente ele também havia me levado até aquela casa para abrigar-me do sol durante o dia. Quando me refiz do espanto causando pelas minhas próprias recordações, vi que ele havia acordado e caminhava em minha direção com postura felina e de repente senti-me uma presa acuada, encurralada e indefesa. Quando aproximou-se de mim o bastante, encolhi-me e virei meu rosto para o lado, já esperando o pior. Foi quando ele acariciou de leve minha face, estendeu-me a mão para que me levantasse, aprumou minha roupa no corpo e verificou se estava bem. Me pediu desculpas e explicou-me com uma voz doce porém enérgica que um vampiro jamais dorme tão profundamente que não possa sentir alguém se aproximando, e que um mortal não sobreviveria a um golpe como o que me foi aplicado. Foi com essa frase que tive plena consciência de que havia deixado para sempre o mundo dos vivos. Eu tinha tantas questões em minha mente, me perturbando enquanto olhava encantada para ele, quando ele me interrompeu:
__Foi isso que me fascinou em você, fez com que a escolhesse.
__O quê? __respondi meio sem jeito, embevecida pela sua voz.
__Essa sua capacidade de se maravilhar com algo como eu, algo que os outros mortais repugnariam mesmo se deixassem de ser mortais.
__Não tem como repugnar você.
__Não falo apenas de aparência. Aqueles que acreditam na nossa existência odeiam o que eu represento. Eu sou a morte impiedosa e inescrupulosa, eu sou um animal, um predador da sua própria espécie, embora eu não seja mais um deles...
__Eles apenas temem aquilo que não compreendem, tudo o que é para eles desconhecido.__ Eu respondi, tentando, sem sucesso, acalmá-lo.
__Mas, falando em mortais,__ ele mudou de assunto__ Você deve estar sedenta. Não tinha forças para fazer sua primeira vítima ainda na noite de ontem. Foi quando pensei pela primeira vez nas implicações de ser vampira. Eu haveria de matar, não tinha outro jeito. O sangue borbulhante me chamava para as ruas, apinhadas de jovens àquela hora. Podia vê-los pela janela. Tão risonhos e cheios de vida, tão próximos do que eu era há menos de 48 horas atrás. O que era aquilo que eu sentia? Não podia ser unicamente vontade de matar, por quê eu haveria de querer matar pessoas que estavam gozando do melhor que a vida lhes podia oferecer? Estavam tão felizes, casais de mãos dadas pelas ruas, trocando beijos apaixonados, à despeito dos olhares mal disfarçados. Eu sentia certa inveja de todos eles. Mas pensar que haveria toda uma eternidade à minha frente me afastou tais pensamentos. Tantos lugares para ir, tantas coisas a conhecer...
Meu criador então pegou-me pela mão e levou-me pelas escadas até o andar térreo da casa. Havia sobre um antigo sofá um belíssimo vestido cor de carmim e um par de sapatos de bico fino que me serviriam bem. De fato, eu não poderia sair às ruas daquele jeito, ainda haviam enormes manchas de sangue e minha blusa ainda estava rasgada, de modo que meus seios estavam parcialmente à mostra, o que deixou-me um bocado envergonhada. Tendo ele percebido que eu estava sem jeito, retirou-se da sala, pedindo-me licença, e deixou-me para que me trocasse. Terminei de vestir-me, pus os sapatos e fui para a frente de um grande espelho que ficava à esquerda da lareira. Achei graça do fato de alguns escritores, principalmente os mais antigos, acreditarem que vampiros não têm reflexo. Fato que eu acabara de comprovar não ser verídico. Ao olhar-me, percebi que a roupa caíra como uma luva, mas minha aparência geral era péssima. Não havia sequer resquício de cor em meu rosto e meus olhos estavam bastante fundos. Eu fiquei apavorada com minha imagem. Voltei-me e ele estava apoiado no batente da porta a observar-me. Disse que eu estava belíssima e que tinha acertado em cheio meu tamanho. Tentei argumentar que as pessoas se assustariam com a minha aparência, que eu parecia um espectro feminino. Ele limitou-se a dizer que com o sangue quente de minha primeira vítima viria também a cor e o viço dos vivos. Preciso confessar que àquela altura esse desconforto, essa necessidade que eu reluto em chamar de fome, estava tomando conta de mim e eu me sentia fraca, não conseguiria resistir mais àquele impulso. Saímos juntos para o que ele chama de caça. Não demorou muito e avistamos dois jovens, deveriam ter no máximo uns 25 anos cada. Eu ficaria com um e ele com o outro. Meu pai imortal pediu que eu o observasse um pouco. Postei-me ao lado de uma árvore e fiquei olhando de longe. Ele abordou os rapazes, cumprimentou-os cordialmente e iniciaram então uma conversa aparentemente animada. Era incrível como os jovens pareciam hipnotizados por ele, com o que quer que ele estivesse dizendo. Ele então olhou para mim e entendi de imediato que era para me aproximar. Nossa comunicação agora era quase telepática, embora não pudesse ler sua mente ou ele à minha. Quando juntei-me ao trio, ele me apresentou um dos rapazes. Chamava-se Márcio. Achei estranha a sua expressão vazia enquanto olhava para mim. Certamente nem imaginava de fato o que estava acontecendo, nem poderia. De súbito meu criador perguntou-lhes se gostariam de jantar conosco, de pronto eles aceitaram. Levamos os rapazes até nosso refúgio e eles, no estado de torpor em que se encontravam, nem repararam na condição lastimável da casa. Meu pai imortal acendeu a lareira e serviu vinho tinto aos dois, que pareciam encantados com o cenário. Então o vi cochichar algo no ouvido de seu escolhido daquela noite e logo ambos subiram as escadas deixando-me a sós com minha primeira vítima. Márcio então, já sob o efeito do vinho, se põe a acariciar meus cabelos, afagar minha nuca. Ele passa a mão sobre meus ombros e fica a brincar com a alça do vestido. Para meu espanto, com a outra mão passa a levantar devagar o cetim que me cobria as pernas. Quando ele se aproxima para me beijar posso sentir o doce aroma de seu sangue, especialmente quente pois estava excitado. Eu sou então tomada pelo desejo e não consigo mais evitar. Num movimento rápido e um pouco desajeitado cravo minhas presas em seu pescoço, posso senti-lo pulsando enquanto sugo com força. Ele geme alto, já não sei se de prazer ou de dor. Eu o seguro com força para que não se solte, ele tenta oferecer resistência mas é tarde. Toda uma vida fluindo para dentro de mim, gritos, risos, dor, lágrimas, amor e ódio... Repentinamente, a escuridão. Ele estava morto. Estava acabado. Meu anjo da morte me observava do alto da escada. Parecia satisfeito e arrastava com uma das mãos o corpo do outro rapaz ainda agonizante, ele se sacudia em espasmos e aquela cena me aterrorizou. Eu lhe perguntei por quê não acabava com aquele sofrimento e ele me disse que nunca matava suas vítimas enquanto estivessem em seus braços. Ele não queria beber a morte e me aconselhou para que também não o fizesse, pois poderia ser envolvida por ela. Enterramos os corpos atrás da casa, perto de uma fonte no jardim e não tocamos mais no assunto. Naquela noite um vazio enorme tomou conta de mim e fiquei melancolicamente sentada à janela observando as poucas pessoas que passavam na rua àquela hora da madrugada. Estariam elas imaginando que monstros como nós espreitam na escuridão apenas esperando o momento oportuno para atacar? Eu tinha apenas uma morte nas costas e esse peso já era demais para mim. Eu sabia que teria que continuar com aquele ritual macabro todas as noites se quisesse continuar vivendo. Ou sobrevivendo. Sabia também que eram poucas as maneiras de acabar com aquilo tudo. Meu criador me viu e como que adivinhando meus pensamentos me disse que eu me sentiria assim no início, mas que ficaria mais fria com o passar do tempo. Ele estava saindo novamente, precisava de mais sangue. Embora eu agora soubesse a sensação indescritível que é, me recusei a ir com ele. Quando a madrugada ia mudando as suas cores, tornando-se manhã, resolvi subir para o quarto e abrigar-me da luz. Ele já dormia. Deve ter entrado pelos fundos para não me incomodar nas minhas divagações sobre vida e morte. Ou simplesmente para evitar a minha tristeza. Estava tão sujo e descabelado que nem parecia mais aquela imagem etérea que me encantou no meu despertar. Parecia muito um mortal agora, tão corado que estava, imagino que deva ter ceifado muitas vidas numa única noite. Me deitei ao seu lado e um peso letárgico tomou conta de meu corpo. Logo estaria dormindo. Continua...

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