Manuscrito Encontrado Em Uma Garrafa
Por Gian Danton
Não costumo visitar praias. Por isso é estranho que justamente eu tenha
encontrado a garrafa. O mundo, entretanto, apresenta simetria estranha. Não
acredito em destino. Creio, antes, que nossa vida se assemelha a um fractal.
O destino é uma linha dividida em duas, que por sua vez se dividem cada uma
em duas, até o infinito. Constantemente temos de decidir entre uma situação
e outra e, quando fazemos isso, estamos reconstruindo nosso destino. Se,
naquela tarde eu não tivesse consentido em acompanhar minha irmã e seu
marido à praia, talvez não tivesse encontrado a garrafa. E talvez ninguém
teria descoberto seu conteúdo, uma narrativa estranha, como que escrita por
um louco. Dela não mudei nada e reproduzo exatamente como a encontrei:
"Espero que alguém encontre este papel que tive a louca idéia de enfiar numa
garrafa e lançar ao mar. Talvez assim eu consiga superar a barreira que me
separa do mundo.
Já conto um mês que estou aqui. Tenho andado de um lado para o outro e,
embora pareça estar num continente, ou numa ilha enorme, jamais encontrei
viva alma. Também não encontrei nenhum vestígio humano. Como é possível que,
em pleno século XX haja um lugar onde o homem nunca tenha colocado os pés?
Não. Isso não é possível A única explicação lógica que encontro é esta:
estou em outra dimensão. Por alguma razão, fui transportado a um lugar no
qual a noção de espaço é totalmente diversa daquela que conhecemos.
E, no entanto, os eventos que me trouxeram a este local foram tão estranhos
quanto a situação em que atualmente me encontro.
Eu era jornalista de um famosos periódico e fui enviado para realizar uma
reportagem a respeito das ilha litorâneas do Estado de.... Íamos num barco
pequeno, de motor de popa. Junto comigo ia o fotógrafo e um nativo da
região, que manobrava o barco.
Percorremos várias ilhas, parando aqui e ali. Então, quase no fim da tarde,
encostamos o barco em uma tribo indígena. Conversamos com alguns índios,
tiramos fotos e eles nos trataram muito bem. Entretanto, quando informamos
que pretendíamos voltar ainda naquele dia para o continente, eles pareceram
preocupados.
O cacique apontou o céu nublado, ameaçando tempestade e nos aconselhou a
não partir. "Além de tudo", ele disse "essas não são águas seguras para se
viajar à noite...".
Certamente ele não conhecia a pressa característica dos jornalistas:
decidimos voltar imediatamente, antes que a tormenta se formasse.
Fomos pegos no meio do mar. O que começara com um simples chuvisco
tornou-se uma borrasca infernal. A chuva assemelhava-se a milhares de
agulhas perfurando nossa pele. O mar agitava-se em ondas que alcançavam até
três metros. Eu e o fotógrafo, instalados na proa para equilibrar o barco,
mal conseguíamos nos segurar. O barco subia até a crista da onda e depois
despencava com enorme estrondo.
De repente anoiteceu. A tempestade continuou ainda por algum tempo. No fim,
já não sabíamos mais onde estávamos e para onde o barco se dirigia. Devíamos
estar em alto mar quando a tormenta amainou. O nativo nos informou que nossa
única chance era encontrar uma ilha onde pudéssemos passar a noite.
Foi quando ouvimos ou pressentimos algo. Olhamos à volta e o que vimos nos
alegrou a princípio: era um navio!
Entretanto, à medida em que ele se aproximava meus sentimentos com relação
a ele mudava. Era, de fato, um navio. Mas não se parecia com nenhum navio
que eu já havia visto. Parecia ter pelo menos dois séculos de existência.
Havia alguns grandes mastros, que sustentavam velas rasgadas. O casco de
madeira parecia escurecido pelo tempo.
O monstro de madeira singrava calmamente as águas turbulentas... em nossa
direção! Eu jurava ouvir vozes vindas do tombadilho. Uma voz mais grave
parecia comandar as manobras e outras respondiam às suas ordens. Mas é
possível que estivesse delirando, pois quando o navio se aproximou,
percebemos que não havia ninguém a bordo.
O nativo precisou ser hábil para desviar, pois a embarcação ameaçava nos
despedaçar com sua quilha.
Entretanto, a onda que se levantou à sua passagem quase fez com que
sossobássemos. Preocupados em nos agarrar e impedir que o barco afundasse,
perdemos o navio de vista. Quando demos por nós ele havia desaparecido...
como um fantasma!
Navegamos ainda durante algum tempo, meio perturbados pela estranha
aparição. Súbito o navio ressurgiu a menos de 50 metros de nós. Como ele
fizera a volta em tão pouco tempo era algo que nenhum de nós conseguia
imaginar. Dessa vez o nativo não foi tão rápido. O navio atingiu nossa proa
e fui jogado ao mar.
Nada mais sei. Devo ter desmaiado e, quando acordei, estava neste lugar.
Desde então tenho andado à procura de pessoas, mas minha busca tem se
revelado infrutífera.
Tudo de humano que tenho comigo são minhas roupas e esta garrafa na qual o
nativo trouxera um pouco de aguardente com o qual nos esquentávamos durante
a tormenta. É essa garrafa que levará minha mensagem. Talvez ela consiga
alcançar aquela outra dimensão da qual fui exilado. Que alguém a encontre,
leia sua mensagem e acredite em mim já é sinal de que estou vivo. E isso já
me basta".
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