"Ali passam navios; e o leviatã que formaste para nele folgar"
Salmos, 104, 26
Durante longo tempo nossa vila foi assolada por uma criatura desconhecida,
mas hedionda e maligna. Pessoas de bem eram encontradas à beira da praia,
seus corpos estraçalhados e maculados. Não havia dúvida: o mal os tocara,
deixando neles sua inevitável nódoa.
Com o tempo o medo tomou conta do povoado. Era mister destruir a fera antes
que o terror nos destruísse a todos. Tratava-se, evidentemente, de um
monstro do mar. Assim, decidiu-se pela organização de uma equipe que daria
caça ao bicho. De todos, Afonso era o mais entusiasmado. Não admira,
portanto que coubesse a ele a chefia da embarcação.
Sim, havia um velho navio que serviria para o combate. Estranho. Lembro-me
que, quando entrei nele pela primeira vez, tive a impressão de que penetrava
no próprio covil do demônio. Talvez, pensei, essa impressão fosse causada
pelo aspecto da embarcação. E, de fato, a madeira estava velha e rangia como
um gigante resmunguento. O convés estava repleto de limo e as velas pareciam
ter a intenção de se esfarraparem ao primeiro vento. Uma assustadora
carranca adornava a proa.
Embarcamos. Fomos nos afastando da costa na direção do mar, esperando
encontrar a fera. Vigiávamos em turnos e aqueles que eram dispensados podiam
se recolher aos rudes quartos improvisados sob o convés. Fiquei de sentinela
um longo tempo e fui substituído por Afonso, que colocou a mão sobre meu
ombro e disse:
- Vá descansar. Deixe que cuidamos da ffera.
Desci e deitei, mas não conseguia dormir. Em certo instante em que fechei
os olhos, parecia ouvir arrastar de correntes e gemidos, misturados ao
sussurro do mar. Dei-me conta de que já começava a dormir. Estava naquele
estado em que nem dormimos, nem estamos acordados... e uma estranha
premonição tomou conta de mim... Como se algo estivesse errado.
Então houve como que um estrondo. O navio balançou, rangendo sua estrutura.
Subi ao convés, temendo que o costado não resistisse. Uma tempestade
tremenda se formava. Ondas de seis metros lambiam o convés. Um vento forte
fazia com que o navio balançasse como um velho bêbado.
- Onde está? Onde está o monstro? - perrguntei.
- Não adivinha? - respondeu Afonso, levvantando o rosto para mim.
Só então pude ver seus olhos que brilhavam como chamas, em assombroso
contraste com o resto da face, dominada por trevas.
Procurei os outros, em socorro, mas estavam todos no convés, olhando-me do
mesmo jeito. Embora o navio balançasse muito, permaneciam simplesmente em
pé, os braços ao longo do corpo, os olhos fixos em mim.
- Não adivinha onde está o mal? - trovejou Afonso.
- Não advinha onde está o mal? - repetiram os outros.
Corri deles, descendo as escadas, atrapalhado pela fúria dos elementos, que
sacudia implacavelmente o navio. Percorri todos os lugares, procurando um
lugar onde me esconder. Assustadora compreensão me dominava. Eram eles o
monstro. Eles, o leviatã.
O mal, encarnado neles, dera cabo de todos os homens bons da vila. Só
restara eu. Eles me trouxeram, então, para o navio, a fim de me fazer
sucumbir depois de prolongadas torturas.
Estou aqui, agora, trancado nesse cubículo apertado. Ratos e baratas
passeiam pelo meu corpo, esperando pelo momento em que estarei fraco demais
para resistir ao seu apetite devorador. Lá de cima me vem o som de correntes
e o sussurro dos mortos. Penso em Afonso, em esgar de ódio, ansiando pela
morte de seu melhor amigo.
Passos. Estão se aproximando. Logo vão me encontrar. Se não o fizerem,
morrerei de sede, de fome, ou devorado pelos ratos.
Dentro em breve... eu verei a face do Leviatã...