O FUNERAL
Por Insane Delirium
Está chovendo... as pessoas vestidas de preto olham para baixo, protegendo-se com guarda-chuvas também pretos. Esse fim de tarde nublado é especial para mim. Mas, olhe quem está lá: o que este senhor veio fazer aqui? Semana passada insultou-me, e hoje está aqui! Para falar a verdade, há pessoas demais nesse lugar. Nota-se claramente que algumas lágrimas são falsas e fingidas! Pelo menos há algumas pessoas, bem poucas, que realmente sentem muito. E a presença delas aqui me conforta. Posso ver sua tristeza escorrer pela face.. Uma tristeza profunda e verdadeira.
Mas esta mulher próximo à mim, encarando minha face pálida, é a que mais sofre. Eu avisei a ela que esse dia chegaria, e que não demoraria muito. Tentei prepará-la da melhor forma para este momento, mas vejo que falhei no meu intento... Suas lágrimas chegam a me perturbar, pois se ela era a pessoa que mais me compreendia, com certeza devia saber que não lamento minha sorte. Talvez ela lamente a minha ausência, ou talvez as noites de insônia que passamos juntos, ou ainda sinta saudades de minhas idéias e delírios utópicos. Também sentirei sua falta, acredite mulher, sentirei muito a sua falta!
Aquele homem que a conforta, com a mão direita sobre seu ombro, também sofre verdadeiramente, e lamenta perder o amigo que cativara e conquistara a confiança. Ele deve sentir saudades de nossas longas discussões sobre assuntos indiscutíveis. Ele era um amigo próximo, e as pessoas estranham ele não chorar agora, ficando simplesmente com a mão direita sobre o ombro de minha esposa e olhando-me ternamente. Num certo momento, chegou até a esboçar um sorriso, que tentou disfarçar encolhendo-se em seu sobretudo... ele devia ter lembrado da diversão que tínha em provar à mim suas teorias, por mais insanas que elas fossem. E também gostava de me ouvir falar. As pessoas se referem a ele como se fosse um louco (o que não duvido que seja), mas ele não chora porque sabe que estou apreciando esse momento, e apesar de lamentar a falta do amigo, ele fica feliz por mim...
Olhando novamente todos os aqui presentes, posso ver que há mais alguém que sofre verdadeiramente. Esse alguém só poderia ser meu fiel cão, que agora já velho, posso sentir como ele lamenta ficar longe de seu dono e companheiro. Confessei àquele cão segredos de minha alma, e ele me seguia onde quer que eu fosse. Éramos inseparáveis, o que às vezes irritava minha esposa... Sempre que estava em casa, ele me fazia companhia, enquanto eu alisava seu pêlo. Posso ver ainda a cena que muitas vezes se repetiu na minha vida: Eu, minha esposa, meu amigo e meu cão na sala. Conversávamos ou simplesmente ficávamos em silêncio, pensando... Talvez esse fosse meu maior defeito, eu penso demais. Já me disseram isso, mas não dei a devida atenção à esse assunto...
É claro que não são só esse três que sentem minha falta, há pessoas aqui que ainda não parecem acreditar que eu parti... Mas os três que citei anteriormente conheciam-me profundamente... Tudo isso me faz pensar: -- Será que foi uma boa idéia assistir ao meu próprio funeral?
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