Nos olhos, brilho de predador
Nas paredes, escritas de meu pavor
Na janela, o cinza de um dia sem calor
Uma mágoa que nos assusta
A solidão é o preço que nos custa
A dor é a oferenda que nos resta
Na tatuagem cicatrizada
De três números iguais na testa
Vomitando os teus deuses
Bebendo o néctar do pecado
Por uma ou dez mil vezes
Do sangue do mel puro
Ao gosto amargurado do sangue maduro
Um louco apaixonado
De pensamento imaturo
Cresce assustado
No jardim que colhe a morte
Cortado ao meio corte
Por um rio vermelho concentrado
De ares a vales sinuosos
De lágrimas a olhos chorosos
Que refletem o padecer de religiões e santos milagrosos
Para viver e carregar orações a paraísos gloriosos
Loucuras de sete sonhos
Lembranças que habitam o lar dos meus heróis medonhos
Os quais a criação surgiu em meio à frustração
E fantasmas do medo
Que rodeiam a mim e minha maldição
Par de léguas cansativas
No deserto escuro e sombrio
No ego largo e frio
Do meu pensamento amargo e vazio
Na busca dos anjos que condenei
No tormento dos mortos
Os quais minha taça entreguei
No cais escuro dos portos
De águas turvas e cegas
Águas que manchei
Do corpo que me entregas
Em curvas e caminhos tortos
Sonhos das sombras
Invoco meus deuses
Rodeado de víboras, serpentes e cobras
Numa volta ao redor de mim
Olhos de vidro
Castiçais de ouro
Forca de corda, o nó
Aos pensamentos de prata
Dos poetas de bronze
Tocam e viram pó
Seus feitiços boçais de longe
Unhas que rasgam a vida
Pinheiros de cedro
Uvas de oliva
Choro sem credo
Lágrima cativa
Críticos alucinados
Místicos apaixonados
Fome de versos calados
Criaturas famintas
Profanam seus cercados
Redemoinhos aos círculos
Labirintos astutos
A morte agora colhe seus frutos
Analisando seus currículos
Antáres, Egito, Pérsia
Atlântis, Macedônia e Grécia
Ruínas de meu eu
Segredos que acusam
O verdadeiro medo teu
Biosfera artificial
Liberta a fera medieval
Praga do prazer carnal
Que trás das profundezas
O verdadeiro ser do mal
Bobo alegre que perdoa
Triste dor que magoa
Mágoa cega que incendeia
Alma insana que te odeia
A magia do despertar
A agonia de te espreitar
A paranóia de me condenar
Na insanidade de te odiar
O prazer de ver o teu sangue jorrar
Na loucura de te amar.