Sacras notas ao nosso deleite
Gloriosa sinfonia fantasmagórica
Casa cheia, de corações vazios
De noites frias à fúnebre ópera
E segue belo o espetáculo sombrio
No divino canto do coral infernal
De negros fantasmas loucos à sonhar
Ao som da pútrida filarmônica imortal
Sinto pena de mim mesmo hoje
Quem não sede aos apelos da morte?
Ao melancólico choro dos violinos?
Bêbados ao ar da insana sorte...
Adorada orquestra de noturnos seres
Toquem a melodia que me toca o coração
Como o toque das doze badaladas seres
O "porque" posto não há morte em vão
Vão profundas notas do prelúdio mortal
Tragam minha noiva que à tempos descansa
Saiam pela noite à ecoar pelos cantos
Façam realidade as minhas lembranças
Profundas notas da orquesta negra
Levem meu amor à minha doce amada
Que nesta fria noite descansa meiga
Tão alva quanto a lua prateada
Alva também é a sua doce alma
Feito à lápide amarga que à guarda
Lágrimas em meu rosto ao senti-la presente
Neste momento, do anoitecer à alvorada
E dentro do velho teatro abandonado
Meus devaneios, tudo ilusão tola
Menos a alegria de te ver agora
Que evita os meus males ... Que impede que eu morra
Transbordo de alegria - ela chegou!
O vestido de noiva com o tempo desbotou
Estás bela, fria, seca, branca, sublime!
Nem a lama ou a podridão nos separou
Ah! Doce baile ao som do sombrio "Bourré"
Dancemos no salão com leveza e amor
Em homenagem aos tempos felizes com você
Estás viva! Quanta felicidade! Quanto louvor!
Mas a lua não é mais a mesma - é gélida
Também não és mais a mesma - estás morta
O teatro? Morto também, destruído e fétido
Somente me restam as recordações agora
Não há música, apenas sons noturnos
Não há orquestra, somente negros vultos
Almas dos músicos presas aos instrumentos
Alegrias em vida que perduram no leito
A noite termina, silenciosa dor latente
Como é a saudade do meu amor moribundo
Sozinho num teatro velho estou novamente
Lamentando e abraçado ao meu amado defunto.