A SEREIA E O POETA

Por Insane Delirium

Caído de joelhos na areia
Olhos perdidos, vagando pelos ares
não perceberam a linda sereia
que surgia brejeira, vinda dos mares

O céu escureceu
e a noite chegou umbrosa
olhei para o mar e vi
a rainha dos mares dengosa

Os pássaros voavam
sempre aos pares
Talvez eles fugissem
da vampira dos mares

Ela chamou meu nome
com uma voz doce e calma
dei um passo vacilante
e sua voz encorajou minha alma

Caminhava firme agora
sempre em sua direção
ela sorria e me chamava
desafiando dos mares a imensidão

Fui me aproximando e comecei a nadar
ela então chegou mais perto e parou
pude então vê-la perfeitamente,
e a feiticeira dos mares assim falou:

"-- Ó poeta triste,
ouvi teu pranto e vim te buscar
não chores mais pela amada perdida,
nem pela vida que há de acabar.
Se sofrias pela solidão imposta
a tua alma atormentada ainda
despeça-se de tudo que não gosta
pois conhecerás a morte linda!"

Fitei-a longamente
e contemplei sua beleza
sua alvura e cabelos ruivos
que se escondiam nas profundezas

Por fim aceitei minha sorte
sorri e segurei sua mão
sabia que aceitara a dama da morte
e minha vida lhe pertencia então

Mergulhamos, e fui deixando-me levar
não sentia mais meu corpo molhado
olhei profundamente seus olhos rubros
e despedi-me das dores do passado

Ambos sabíamos o que aconteceria
o momento fatal se aproximava
as horas perderam o sentido
o tempo já não mais importava

Foi então que paramos
o silêncio nos cercava
ambos nos contemplamos
o fim finalmente chegara

Aproximou-se de mim e inclinou a cabeça
beijou-me profunda e longamente
meus braços a envolviam
e ela envolvia minha mente

Seus lábios eram doces
E sua lingua passeava por minha boca,
Ela me segurava e sugava minha vida,
Sedenta, encantadora e louca

E que ingrata surpresa
quando ela parou e se afastou
seus cabelos flutuavam
e virando-se falou:

"-- Ó poeta da noite,
não posso roubar tua vida
mesmo eu sendo dos mares bandida
não posso tirar-te da solidão!
A tristeza que te acompanhas é eterna
tão eterna quanto sua paixão,
sei que queres aliviar teu sofrimento,
pobre de ti, que tens coração!
Devolver-te-ei à branca areia
de onde não devia tê-lo tirado
Mas por favor, não esqueças esta sereia
e saibas que és meu amado!"

E então, incrédulo e perturbado
por não ter minha vida ela roubado
falei pela primeira vez:
"--olhe pra mim, vampira dos mares,
e diga-me o que vês!
Verás minha alma atormentada
pela morte que nunca chega
Será que não vê isto, ou serás tu cega?
E ousas dizer que sou teu amado,
zombas do poeta triste e atormentado?
se te divertes a amargura de meu coração
vai-te embora, e deixa-me aqui calado"

E ela respondeu:
"--Escute poeta obscuro,
preste atenção para entender:
Teu coração amargurado e impuro
deseja a morte desesperadamente
e tú não percebes o encanto de tua mente.
És belo, louco e atraente
E a morte também te deseja,
Por isso não quer consumir
seus olhos escuros e penetrantes,
nem mesmo seu cabelo longo e negro,
nem seus lábios bem desenhados,
nem seus sonhos amargurados,
nem a alvura de sua pele e
muito menos o resto
e agora com um beijo me despeço
pois tenho que ir
O dia irá nascer
detesto ter que partir
Mas assim terá que ser."

Incorformado, insisti:
"Espere! Então é assim?
Despede-se e some?
Percebes que minha tristeza me consome,
E não ligas para mim?
Seremos amantes distantes?
Como o céu e o oceano,
que tanto se amam,
que percorrem o infinito
e nunca se encontram?"

Ela respondeu, em tom de despedida:
"É teu destino poeta, não há saída!
Amo-te, mas não posso possuí-lo.
A solidão fará em ti seu asilo.
Mas será triste também para mim!
Beijar-te-ei agora,
angelicamente e sem demora,
e só mais uma coisa pedirei:
Pelo nosso amor,
para que nunca me esqueça,
mesmo que te aborreça,
promete-me por este céu
que voltarás agora
pegarás um papel,
escreverás nossa história,
e serás sempre meu.
E se sentir que tua alma chora,
ou que sua alma se apavora,
corra até esta areia
assim que chegar a aurora
E eu estarei aqui, pensando em ti!
Agora vá, volte aos teus pensamentos ateus,
Lembre sempre: Amo-te! Adeus!"

Então ela me beijou
Sorriu e partiu...


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